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Diário de Notícias
June 2002
Review by Nuno Galopim.

Finally we are no one (FatCat / Ananana)
Sonho de uma noite de verão.
Num espaço rural, em noite de Sol tardio, "Finally we are
no one" é a mais perfeita banda sonora. O novo álbum
de originais dos múm é já um dos mais inevitáveis
e belos discos de 2002.
Depois das revelações dos Sugarcubes e, sobretudo, Björk,
a islândia entrou no mapa das atenções musicais. Foi,
contudo, com a revelação de "Agætis Byrjun",
terceiro álbum dos Sigur Rós, que finalmente ficou clara
a demarcação de um universo estético próprio,
capaz de traduzir, pela carga expressiva dos ambientes e sensações
sonoras, toda uma paleta de cores, formas e espaços muito característicos
da vida de uma ilha no grande Norte. Entre o fogo dos vulcões e
o gelo dos glaciares, entre a escassez de formas de uma vegetação
rasteira e o mar por inevitável fronteira, entre a contemplação
de longas horas de solidão e uma sensação de procura
de confortos possíveis pela introspecção, a música
dos Sigur Rós acabava por nos sugerir uma identidade geográfica
muito própria, comprovando que não é necessária
a citação de teses etnomusicológicas para conferir
espaço concreto a uma identidade musical.
Com carreira local desde os finais dos anos 90 (quase contemporânea
à dos Sigur Rós), os múm vêm agora propôr-nos
novas linhas e sensações. Respeitando contudo, uma norma
de placidez fria (própria da latitude e não expressão
de falta de sensibilidade e emotividade) e uma tendência para a
contemplação não urbana que, de certa forma, acaba
por reforçar as teses de identificação islandesa
que os Sigur Rós haviam já explorado.
Contos Electrónicos
Os múm são um grupo de quatro discretas personalidades.
Dois rapazes (Gunnar Örn Tynes e Örvar Póreyarson), duas
raparigas (Kristín Anna e Gyda Valtysdóttir, irmãs
gémeas com formação clássica que muitos poderão
conhecer da fotografia da capa do último álbum dos Belle
& Sebastian). Gunni deu os primeiros passos nos domínios da
agitada cena "hardcore" de Reykjavik. Örvar, depois de
receber o seu primeiro computador (oferecido pelos pais), começou
a explorar as potencialidades sonoras do aparelhómetro... Ao mesmo
tempo, as "meninas" iam estudando piano e tocando violencelo.
A sua estreia pública acontecera quando tinham nove anos de idade
e assinaram um musical sobre crianças abandonadas que então
apresentaram na escola, usando os colegas como actores e cantores... Anos
mais tarde, ambas procuravam outros destinos e actuavam num centro comunitário...
fazendo versões de temas dos Pixies. Foi ai que, finalmente, os
quatro destinos se cruzaram. Os múm (palavra sem sentido aparente,
traduzindo apenas um som) nasceram pouco depois, entre uma série
de projectos de colaborações interdisciplinares. Isto porque,
como os Gusgus, os múm parecem estar emersos numa multidão
de amigos, entre os quais encontramos gente da escrita, da música,
das ideias, das políticas.
Com uma discografia consideravelmente vasta (sobretudo em registos de
colaboração e participação em inúmeras
compilações anteriores mesmo à estreia "oficial"
em álbum), os múm editam agora o seu segundo registo de
originais, sucessor de "Yesterday was dramatic, today is ok"
(Thule 2000). Através desse disco de estreia haviam já assinalado
claras intenções de definir traços de um certo paisagismo
electrónico. Contudo, as cores e tons denotavam ainda uma carga
digital relativamente opressiva. Conquistaram, imediatamente os mais atentos
seguidores das cenas electrónicas. Mas não adormeceram à
sombra do vulcão...
Encantos Boreais
"Finally we are no one" pode representar para 2002 o que "Agætis
Byrjun" dos Sigur Rós sugeriu em 2000 (data da edição
internacional, já que o álbum foi originalmente lançado
na Islândia em 1999). Ao contrário dos quatro gnomos encantados
que nos ofereceram um dos mais belos frutos derivados das escolas rock,
os múm optaram já pelo inglês como língua oficial.
Concentram, todavia, nos ambientes e postura vocal, uma carga de sensibilidade
rara, curiosamente semelhante.
Apontar o disco como um ponto eventual num espaço de sonho entre
uns Sigur Rós e uns Lali Puna poderá parecer excesso de
zelo taxonomista. Todavia, "Finally we are no one" tanto sugere
a vastidão dos espaços, a liberdade das formas e o desafio
da terna descoberta de uns Sigur Rós, como a arte da sedução
suave e delicada de uns Lali Puna. As electrónicas definem linguagens,
arquitectam estruturas. A rara sensibilidade dos dedos que programam aceita
também o desafio físico de instrumentos tradicionais. Glockenspiel,
acordeão, melódica, violoncelo... No fim, uma plácida
voz de anjo completa o quadro.
Apesar dos recursos evidentes às novas tecnologias, mesmo pleno
de uma alma que expressa contemporaneidade e modernidade, este é
um disco que cheira à pacatez de uma existência rural. Sugere
uma cabana de madeira, noites à luz do petróleo com uma
aurora madrugadora e um verão de usar camisola de malha. Um raro
encanto com travo ao grande Norte. Exótico? Nem por isso... Antes,
encantador. Sabe bem este banho de sensações puras.
Rating : 5 out of 5.

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