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Mondo
Bizarre magazine May 2002
Article by H.G.

múm : Júbilo Anónimo
Os múm são mais um daqueles projectos que vêm do frio para aquecer lares
e incediar paixões enregeladas. Compatriotas dos Sigur-Rós, editam agora
o seu segundo álbum - "Finally we are no one". A prova que o degelo é
a mais profícua fase no processo de gestação da música.
Executantes de uma electrónica de vincos bem trabalhados, os múm são o
núcleo produtivo constituído por dois rapazes e duas raparigas gémeas
com formação clássica. Enquanto estas são capa do álbum "Fold your hands
child, you walk like a peasant" dos Belle & Sebastian, Smárason (um dos
elementos masculinos da formação) decide abandonar a forma convencional
de compor música - designadamente, a predominância das guitarras nas suas
anteriores bandas - ao perscrutar a atmosfera viciante de Aphex Twin.
Formado em 1997, os múm têm vindo a fustigar a superfície da pop enquanto
sondam os territórios tendencialmente virgens da experimentação, em pinceladas
quase infantis e inconsequentes. O álbum de estreia ("Yesterday was dramatic,
today is ok") viria a desabrochar no ano 2000, sendo editado pela Thule.
Seguiram-se dois discos de remisturas: "Please Smile my noise Bleed" e
"múm:remixed". Os múm são uma indagação deste e de outros mundos, um alargamento
até ao infinito das potencialidades da música. A base instrumental é complexa,
acústica e maioritariamente formada pelo violoncelo, o acordeão, a melódica,
as guitarras e o baixo. O tecido feito de faustosos desvarios é rasgado
por frágeis e cortantes melodias de voz. Voz feminina, delicada e perversamente
hipnótica na ingenuidade com que é projectada. Este "Finally we are no
one" , o segundo álbum publicado e o primeiro pela FatCat Records, respira
através de guelras disformes e texturas de um densidade áspera, que só
poderia ser retirada das frias paisagens da Islândia. As canções alimentam-se
da seiva que corre por entre artesanais orquestrações que suportam o álbum.
Os sons são recolhidos do exterior mas, na altura da composição passam
a integrar o universo privado, individualizado de uma música que preenche
o intervalo dos sonhos ("Sleep/Swim"). O ritmo, ora compassado ora sorumbático,
é o de um conto infantil adulterado na forma, tradicional no conteúdo
("Now there's that fear again"). Mas o gelo que serviu de lubrificante
à feitura do disco é corrosivo na forma como os conceitos são abordados
- "Don't be afraid, you just have your eyes closed". E perpassa o magma
que brota da multiplicação de combustões. Em seguida, as palavras atravessam
a massa, entretanto formatada, e circunscrevem os sons coma violência
do algodão. O resultado não chega a provocar o caos- é antes, uma dolente
tentativa de mutação.
Se, umas vezes, evocam a agridoce proposta dos Sigur-Rós, outras, como
em "green grass of tunnel"", os múm conseguem descongestionar as vias
por onde se desloca a música. Onde aqueles sucumbiam no dealbar do clímax,
estes vaticinam desvios conceptuais e estéticos para o planalto sonoro
que vão calcorreando. E depois, há o conforto que parecem sentir numa
indigência - não totalmente miserabilista, antes consciente da recatada
posição que ocupariam em hasta pública - e que o titulo do álbum tão bem
esboça. "Finally we are no one" é um trabalho para escutar à medida que
a alma se dilui na cinza da intemporalidade.

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