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Público
newspaper May 2002
Interview by Vitor Belanciano.

Conta-me uma Fábula - múm
Os islandeses múm acabaram de lançar o álbum "Finally We Are No One".
É uma fábula electro-acústica. Ouve-se de olhos fechados e, mesmo depois
de os abrirmos, nunca mais a esquecemos.
Não é Björk porque, por incrível que pareça, o tom de voz é ainda
mais agudo. Não é nenhum dos Sigur Rós porque ainda é mais lacónica e
revela maiores dificuldades com a língua inglesa. Está a falar de Birmingham,
em Inglaterra, onde está em visita de promocão ao novo álbum dos Múm,
e não de Reykjavik, na Islândia, onde habita, ou de Berlim, onde vive
a sua irmã Kristin Anna e o companheiro Orvar Smárason.
Tentamos comunicar com Gyda Valtysdóttir, uma das irmãs gémeas que compõem
o quarteto Múm. Tentamos falar daquilo que é suposto falar. Da influência
da Islândia na música do grupo, das comparações com os Sigur Rós, da melancolia
que emana de uma sonoridade electro-acústica doce e terna.
As palavras saem com dificuldade. Deste lado porque é fácil cair em chavões
acerca de um grupo que se apresenta à partida com um universo tão codificado.
Do lado de lá porque nem sempre é fácil gerir a curiosidade dos outros
acerca dos mesmos assuntos.
É Gyda quem inverte os papéis e quebra o gelo. "Lisboa é uma boa cidade
para andar de bicicleta?". Que não, respondemos nós. É feita de altos
e baixos e os condutores não têm grande respeito por quem anda de bicicleta.
"É pena", diz, "tenho ouvido histórias muito bonitas acerca de Lisboa
e gostava de conhecer a cidade. E é uma boa cidade para se andar a pé?".
Saudade. É sim, Gyda. Uma boa cidade para nos deixarmos perder, para irmos
desvendado lentamente, procurando perceber todos os seus recantos labirínticos.
Dizem que Lisboa reflecte uma melancolia luminosa. Tudo ideias que assentam
com a música dos Múm, arriscamos. "Achas?" interroga-se. "Não sei. Dizem
que o nosso novo disco é triste, mas não sei. Não o vejo como tal. Muitas
pessoas dizem que a nossa música é nostálgica num sentido positivo. No
sentido em que se recordam de algo que lhes é agradável. Sente-se perda,
mas mesmo assim é uma memória agradável." Falamos-lhe da tradução portuguesa
para esse sentimento. Saudade. "Saúudadee", diz, "nunca tinha ouvido falar.
Mas é isso, a nossa música invoca a saúudadee".
A saudade, talvez, mas também o doce embalo de uma fábula dita por voz
delicada e terna. Já era assim no álbum de estreia "Yesterday Was Dramatic,
Today Is Ok" e volta a acontecer no novo "Finally We Are No One". A diferença
está na consistência interior que o novo álbum denota. "Tivémos mais tempo
para trabalhar neste disco e parece-me que a simbiose entre electrónica
e instrumentos acústicos foi mais conseguida" afirma Gyda, acrescentando,
"antes, tocávamos por cima dos sequenciadores. Agora, existe uma verdadeira
osmose, não se consegue distinguir aquilo que é electrónico e acústico.
Apenas existe a nossa música".
Gyda e a sua irmã gémea têm formação clássica em música. Os dois rapazes
são mais das electrónicas e da pop. O que poderia sugerir diferentes formas
de olhar e viver o processo de criação, mas não. "Todas as canções nascem
de formas diferentes. Todos temos ideias e partilhamo-las em conjunto.
A maior parte das canções nasce, cresce quase por acidente e, passado
um ano ou mais, quando estamos em estúdio, deparamo-nos com o resultado
final. O facto de termos formações diferentes não acaba por ter qualquer
influência na criação. Pelo menos na forma como nos relacionamos com a
música".
Parte das faixas de "Finally We Are No One" são instrumentais, mas também
existem momentos onde os sussuros vocais da facção feminina da banda se
fazem sentir. Mas mesmo quando as frágeis digressões orquestrais imperam,
parece existir uma vontade de tingir tudo com a estrutura da canção pop.
"A música electrónica cria ambientes, enquanto aquilo que fazemos está
mais próximo da ideia de narrativa. É como criar histórias sonoras". E
a voz, quando surge, acaba por funcionar como mais um instrumento? "Exacto,
é isso mesmo. Tentamos que coexistam elementos acústicos, electrónicos
e vozes".
Já sabemos como tem sido acolhida no mundo alguma da jovem música islandesa.
E no interior do seu próprio país, quem são os Múm? "Somos quatro jovens
discretos que gostam de andar de bicicleta e fazer música, apenas isso.
A nossa música não é fácil, mas depois de Björk e dos Sigur Rós existe
mais pré-disposição para aceitar outras músicas na Islândia". Na maior
parte dos países escandinavos existem fortes apoios governamentais para
incentivar as Artes. E na Islândia? "A Islândia é um mundo à parte" afirma
entre risos Gyda. "Não existe pobreza, as pessoas vivem bem do ponto de
vista material, mas falta qualquer coisa... Não sei, talvez seja essa
a razão porque fazemos música."
As gémeas Kristin e Gyda ficaram conhecidas depois de terem aparecido
na capa do disco dos Belle & Sebastian, "Fold you hands child". A segunda
conta a história. "Conhecemos, por acaso, Stuart Murdoch, e ele fez-nos
essa proposta. Dissemos 'porque não?' e pronto é isso... Gostamos da música
deles. À sua maneira é triste, mas é uma tristeza feliz. Não é depressiva,
que é algo de completamente diferente. Ainda não ouvi o seu novo álbum,
mas estou com curiosidade".
De poucas palavras, Gyda. Mas não são as poucas palavras de quem acha,
de forma displicente, que a música fala por si. São apenas as poucas palavras
de quem acha timidamente que aquilo que tem para dizer não é muito relevante.
"A música é simples, é a forma de comunicação mais eficaz que conheço",
conclui Gyda.

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