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Público
newspaper May 2002
Review by Vitor Belanciano.

múm - Finally we are no one (FatCat, distri.Ananana)
Eis o típico objecto capaz de gerar um fenómeno de culto e de, simultaneamente,
provocar ataques de urticária em muita gente. É quase sempre assim com
discos como "Finally We Are No One". Discos feitos no fio da navalha das
emoções mais delicadas, alheios ao mundo circundante. Alheios a quase
tudo na verdade. Discos que não se preocupam tanto em reflectir a realidade,
mas sim em construir mundos paralelos. Existem muitos outros grupos assim
no contexto da música actual. Não partilham afinidades estéticas, mas
sim estados de espírito. Pode ser a pop-folk ingénua dos Kings Of Convenience,
o neo-rock introspectivo dos Sigur Rós ou a electropop intíma e microscópica
de Björk e dos alemães Laub dos últimos álbuns. A uni-los essa ideia de
que o sonho pode comandar a música.
Talvez por isso, o que os islandeses múm gostam mesmo é de andar de bicicleta.
Por isso, vivem entre Reiquejavique e Berlim. Cidades planas, lá onde
se pode andar de bicicleta em passeios largos, ao mesmo tempo que se saboreia
um gelado e se anda se 'headphones' nos ouvidos. O ano passado, em entrevista
à revista inglesa "Sleazenation" confessavam: "a música tem uma relação
especial com o tempo e, principalmente, com o espaço. Pensamos que é agradável
ouvir este disco enquanto se anda de bicicleta. Pode ser num espaço rural,
mas qualquer cidade espaçosa serve". O disco em questão era o álbum de
estreia, "Yesterday Was Dramatic, Today Is Ok", mas a ideia pode servir
perfeitamente para o novo álbum, até porque o assunto bicicletas continua
a dominar a vida dos quatro islandeses como se constata numa entrevista
recente à revista "Jockey Slut". São putos os múm - têm todos cerca de
20 anos - e só lhes fica bem.
São quatro. Os rapazes Gunnar Örn Tynes e Örvar Smárason e as irmãs gémeas
de formação clássica Kristín Anna e Gyda Valtýsdóttir. Deles diz-se
que são tristes, da música que é dramática. Eles devem rir-se de tudo,
porque "Finally We Are No One" é a respiração natural de dois rapazes
e duas raparigas islandeses em dia de luminosa melancolia.
É um disco feito de uma nostalgia faz-de-conta, dominado por complexas
programações rítmicas, melodias irresistivelmente pop, texturas etéreas,
lentos movimentos electrónicos, incompreensíveis e ocasionais sussuros
vocais e desenvolvimentos acústicos proporcionados pelo acordeão, violoncelo
ou baixo. "Finally We Are No One" é uma caixa-de-música ternurenta e afectuosa.
É como uma fábula, alguns vão acreditar e entrar nela, outros vão ficar
à porta.
Rating: 8 out of 10.

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